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Em meio a vídeos virais e acusações nas redes sociais, dados oficiais e organismos internacionais independentes ajudam a separar o que é fato do que é narrativa

Nas últimas semanas, vídeos e mensagens questionando a qualidade do pangasius e da tilápia vietnamita voltaram a circular com força nas redes sociais brasileiras. As imagens mostram supostas condições precárias de criação, alegações de contaminação e avisos sobre riscos à saúde. O problema, identificado por agências de checagem e especialistas em comércio exterior, é que boa parte desse conteúdo não tem origem verificável. E os dados do mercado internacional contam uma história diferente.

Um setor sob escrutínio permanente

O Vietnã ocupa hoje a terceira posição no ranking mundial de exportadores de frutos do mar, atrás apenas de China e Noruega. Mais do que o volume, chama atenção o perfil dos compradores: Estados Unidos, União Europeia, Japão, Austrália e Reino Unido são mercados conhecidos por aplicarem alguns dos protocolos sanitários mais rigorosos do mundo para produtos de origem animal, e todos eles importam pescado vietnamita de forma contínua e crescente.

Para exportar a qualquer um desses destinos, fornecedores precisam cumprir exigências que vão da rastreabilidade da matéria-prima até as condições de trabalho nas plantas de processamento, com irregularidades resultando em suspensão imediata das importações e sem qualquer margem para exceções.

Em 2025, as exportações vietnamitas de frutos do mar cresceram 4,9% para os Estados Unidos, 12,1% para a União Europeia e 10,8% para o Japão, segundo dados da Associação Vietnamita de Exportadores e Produtores de Pescado (VASEP, sigla em inglês para Vietnam Association of Seafood Exporters and Producers), com o setor movimentando US$ 11,3 bilhões no ano, alta de 12,4% sobre 2024.

O teste europeu

O histórico do Vietnã com a União Europeia oferece uma perspectiva concreta sobre a trajetória do setor. Em 1999, apenas 19 fábricas vietnamitas tinham autorização para exportar ao bloco. Hoje são 510 unidades certificadas, um crescimento de 26,8 vezes em pouco mais de duas décadas, com cada uma delas passando e continuando a passar por auditorias conduzidas pelas próprias autoridades europeias, sem aviso prévio.

A União Europeia mantém um dos sistemas de vigilância alimentar mais ativos do mundo, o RASFF (Rapid Alert System for Food and Feed), que registra publicamente qualquer notificação de irregularidade em produtos importados e cujo histórico é consultável por qualquer pessoa ou instituição interessada em verificar os dados.

Lista de empresas vietnamitas certificadas na União Européia.

Certificações independentes: quem audita o auditor

Além das exigências governamentais, parte significativa do pescado vietnamita exportado carrega certificações emitidas por organismos privados internacionais sem vinculação comercial com produtores ou governos. Entre as principais estão o ASC (Aquaculture Stewardship Council), fundado pela WWF, que avalia rastreabilidade, impacto ambiental e condições de trabalho ao longo de toda a cadeia produtiva; o BAP (Best Aquaculture Practices), da Global Aquaculture Alliance, considerado referência central do mercado americano para importação de pescado; o GlobalG.A.P. (Global Good Agricultural Practices), exigido por grandes redes varejistas europeias e presente em mais de 130 países; e o HACCP (Hazard Analysis and Critical Control Points), protocolo de segurança alimentar exigido pelas autoridades sanitárias dos Estados Unidos e da União Europeia para qualquer produto de origem animal importado.

A lógica dessas certificações é direta: sua credibilidade depende inteiramente da independência com que são conduzidas, e qualquer concessão indevida compromete a reputação do organismo certificador como um todo, tornando o processo de auditoria rigoroso por necessidade estrutural, não apenas por princípio.

O padrão da desinformação

Especialistas em checagem de conteúdo identificam um padrão recorrente quando produtos importados ganham visibilidade em novos mercados: surgem vídeos sem autoria clara, imagens descontextualizadas e alegações que circulam em velocidade muito maior do que qualquer processo de verificação consegue acompanhar. No caso do pescado vietnamita, diversas publicações virais foram identificadas como filmagens de outros países ou situações sem qualquer relação com o produto ao qual foram atribuídas.

Isso não significa que o setor seja isento de problemas, já que nenhum setor produtivo de escala global o é. Significa que as alegações que circulam nas redes sociais brasileiras, em sua maioria, não apresentam evidências verificáveis que as sustentem e resistam a uma análise mais cuidadosa.

O que os dados permitem concluir

A presença contínua e crescente nos mercados americano, europeu e japonês, combinada com certificações emitidas por organismos independentes e com a ausência de registros sanitários significativos, forma um conjunto de evidências que qualquer análise séria precisa considerar. Esses elementos não substituem a vigilância permanente que qualquer cadeia alimentar exige, mas colocam em perspectiva adequada o que circula nas redes sociais como se fosse verdade estabelecida e consensual.

Para Victor Key, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil Vietnã, o fenômeno tem um custo que vai além do debate comercial. “A desinformação prejudica principalmente o consumidor, que passa a tomar decisões baseadas em conteúdo falso, sem acesso ao que organismos internacionais independentes já verificaram e atestaram repetidamente. O comércio bilateral entre Brasil e Vietnã é construído sobre dados, certificações e relações institucionais sólidas, e é sobre essas bases que ele precisa ser avaliado”, afirma.

No fim, a discussão sobre a qualidade do pescado vietnamita não é nova e tampouco está restrita ao Brasil. Ela já foi conduzida, com critérios técnicos e evidências verificáveis, pelos organismos regulatórios dos mercados mais exigentes do mundo. O resultado dessa avaliação está visível nos números do comércio internacional e nas certificações que o setor acumula há décadas. Cabe ao consumidor brasileiro ter acesso a esse contexto antes de formar uma opinião.

(Vídeo de 2012. Atualmente o Vietnã conta com 35 exportadoras de pangasius certificadas com a ASC standard, sendo esta a mais rigorosa entre as certificadoras.)

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