Em dezembro de 1986, o Partido Comunista do Vietnã reuniu-se em seu 6º Congresso Nacional com o país à beira do colapso: inflação acima de 700%, agricultores passando fome e uma economia mantida de pé por ajuda externa soviética que começava a minguar. O que emergiu daquele congresso foi o Đổi Mới — termo vietnamita que significa “renovação” —, um conjunto de reformas que redefiniria o destino de um país inteiro. Quatro décadas depois, o Vietnã é a 33ª maior economia do mundo em PIB nominal e um dos casos de desenvolvimento mais estudados do século XX. Entender esse processo é o ponto de partida para qualquer empresário brasileiro que queira compreender com quem está negociando.
O COLAPSO QUE GEROU A REFORMA
Para entender o Đổi Mới, é preciso entender o que o precedeu. Reunificado em 1975 após décadas de guerra, o Vietnã adotou um modelo de economia planificada nos moldes soviéticos: coletivização agrícola, controle estatal da produção e isolamento do comércio internacional. O resultado foi desastroso. No início dos anos 1980, a inflação galopava, as colheitas eram insuficientes e o país dependia criticamente de ajuda externa.
Ironicamente, as sementes do Đổi Mới foram plantadas antes do congresso oficial. Desde o fim da década de 1970, gestores locais e cooperativas agrícolas já flexibilizavam as regras centrais para garantir produção — um fenômeno que ficou conhecido internamente como “quebrar cercas” (fence-breaking). O Partido reconheceu que a pressão vinda de baixo era um sinal de que o modelo não funcionava. O 6º Congresso de 1986 formalizou e ampliou o que já acontecia na prática.
AS REFORMAS: O QUE MUDOU DE FATO
O Đổi Mới não foi uma virada para o capitalismo puro — foi uma reconfiguração pragmática do modelo socialista. Os pilares centrais incluíram a descoletivização agrícola, devolvendo aos agricultores o direito de cultivar e vender sua produção no mercado livre; a autorização para empresas privadas operarem legalmente; a abertura ao investimento estrangeiro direto, com a primeira Lei de Investimento Estrangeiro aprovada ainda em 1986; e a desvalorização cambial para estimular as exportações. O Estado manteve o controle político e a presença em setores estratégicos, mas abriu espaço para que o mercado determinasse preços e alocasse recursos na maior parte da economia.
Os resultados vieram rapidamente e são impressionantes em qualquer comparação histórica. A renda per capita, que mal chegava a US$ 100 nos anos mais sombrios da pré-reforma, atingiu US$ 4.536 em 2024, segundo o FMI — crescimento de mais de 45 vezes em quatro décadas. O PIB nominal chegou a US$ 476 bilhões no mesmo ano, de acordo com o Banco Mundial. A taxa média de crescimento desde a década de 1990 ficou em torno de 7% ao ano. E talvez o dado mais contundente: a parcela da população vivendo em pobreza extrema caiu de aproximadamente 60% em 1990 para menos de 2% em 2022, segundo dados do Banco Mundial — uma das reduções de pobreza mais rápidas já registradas.
A INTEGRAÇÃO GLOBAL: OS MARCOS QUE CONSOLIDARAM O MODELO
O Đổi Mới abriu caminho para uma série de marcos de integração internacional que amplificaram seu impacto. Em 1995, o Vietnã normalizou relações diplomáticas com os Estados Unidos e ingressou na Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). Em 2000, firmou um acordo bilateral de comércio com os EUA. Em 2007, aderiu à Organização Mundial do Comércio (OMC). Cada passo abriu novos mercados e atraiu novas levas de investimento estrangeiro, especialmente de Coreia do Sul, Japão, Singapura e Taiwan.
O investimento estrangeiro direto (IED) desembolsado no Vietnã atingiu um recorde histórico de aproximadamente US$ 25,35 bilhões em 2024 — alta de 9,4% em relação ao ano anterior —, refletindo a confiança contínua do capital global no modelo vietnamita. A capacidade industrial do país expandiu mais de 100% na última década, superando todos os vizinhos regionais.

O MODELO VIETNAMITA: MERCADO COM LIDERANÇA POLÍTICA CENTRALIZADA
Um elemento que distingue o caso vietnamita — e que frequentemente surpreende observadores ocidentais — é a combinação entre liberalização econômica progressiva e manutenção do controle político pelo Partido Comunista. Ao contrário da União Soviética, que tentou reformar política e economia simultaneamente e implodiu, o Vietnã seguiu um caminho diferente: reformas econômicas graduais, sem abertura política. O Partido mantém o monopólio do poder, mas não interfere na lógica de mercado na maior parte dos setores da economia.
Esse modelo gerou debates sobre direitos civis e transparência institucional, mas também produziu uma estabilidade política que investidores estrangeiros valorizam. Para empresas brasileiras, isso significa um ambiente de negócios com burocracia em redução gradual, mas onde o conhecimento das regras locais e o relacionamento com parceiros estabelecidos ainda fazem diferença concreta.
O QUE ESSE HISTÓRICO SIGNIFICA PARA EMPRESÁRIOS BRASILEIROS
Compreender o Đổi Mới é compreender a lógica profunda do parceiro comercial. O Vietnã não é uma economia de mercado convencional nem uma economia planificada: é um sistema híbrido, onde o Estado define as regras do jogo mas permite que o setor privado — nacional e estrangeiro — opere com relativa liberdade. É um mercado que recompensa quem chega com informação, paciência e os parceiros certos.
O Đổi Mới é, em essência, uma história sobre o que acontece quando um Estado pragmático decide colocar o bem-estar de sua população acima da rigidez ideológica. O resultado foi um dos processos de desenvolvimento mais acelerados da história moderna. Para o Brasil, que assinou com o Vietnã uma Parceria Estratégica em 2025 com meta de elevar o comércio bilateral a US$ 15 bilhões até 2030, entender essa trajetória não é apenas exercício acadêmico: é o contexto que torna inteligível tudo o que vem a seguir.






