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Em dezembro de 2025, a FPT Corporation, maior empresa de tecnologia do Vietnã, exportou para o Japão seu primeiro lote de chips semicondutores produzidos comercialmente. O contrato foi de longo prazo, o comprador foi um distribuidor japonês de eletrônicos, e os chips — de gerenciamento de energia — atenderam aos padrões industriais japoneses, reconhecidamente entre os mais rigorosos do mundo. O episódio pareceu pequeno. Mas para quem acompanha o setor, foi um marco: pela primeira vez, chips com propriedade intelectual desenvolvida no Vietnã cruzaram uma fronteira comercial.

O país chegou a esse ponto percorrendo um caminho que durou décadas — e que está longe de terminar. Entender onde o Vietnã está nessa cadeia, para onde quer ir, e a que velocidade está avançando é essencial para qualquer empresa que pretenda se relacionar com o país nos próximos anos.

DE ONDE O VIETNÃ PARTE: MONTAGEM, TESTE E EMBALAGEM

A participação do Vietnã na indústria de semicondutores não é nova. Intel instalou-se no país em 2006 e hoje opera em Ho Chi Minh City um dos seus maiores centros de montagem, teste e embalagem (ATP, na sigla em inglês) do mundo. Samsung, há décadas presente, estabeleceu no Vietnã seu maior centro de desenvolvimento de produtos do Sudeste Asiático. Hana Micron, empresa sul-coreana, comprometeu cerca de US$ 930 milhões em expansão de capacidade de embalagem de chips até 2026. A Amkor Technology, por sua vez, investiu US$ 1,6 bilhão numa planta de embalagem avançada — a maior de sua rede global — voltada para componentes de inteligência artificial, 5G e automotivos.

O setor de semicondutores movimentou aproximadamente US$ 18,23 bilhões no Vietnã em 2024, segundo dados da SEMI — associação global da indústria eletrônica —, com projeção de crescimento de 11,6% ao ano até 2027, quando o mercado deverá atingir US$ 31,28 bilhões. Em dezembro de 2024, o país contava com mais de 170 projetos estrangeiros operacionais no setor, somando capital registrado de US$ 11,6 bilhões.

O problema é que a maior parte desse valor ainda está concentrada nas etapas de menor valor agregado da cadeia: montagem de componentes já prontos, testes de funcionamento e embalagem final. O design dos chips — onde está o verdadeiro valor intelectual e econômico do setor — ainda era, até muito recentemente, praticamente inexistente no Vietnã.

A ESTRATÉGIA NACIONAL: A FÓRMULA C = SET + 1

Em setembro de 2024, o primeiro-ministro Pham Minh Chinh assinou a Decisão 1018 — a Estratégia Nacional para o Desenvolvimento da Indústria de Semicondutores do Vietnã até 2030, com visão até 2050. O documento é ambicioso e incomumente específico. No centro da estratégia está uma fórmula batizada pelos próprios autores: C = SET + 1. C representa chips (Chips); S, especialização (Specialized); E, eletrônicos (Electronics); T, talentos (Talent); e +1 é o próprio Vietnã — o novo destino seguro e confiável na cadeia global de semicondutores.

A estratégia se desdobra em três fases. Na primeira, até 2030, o objetivo é atrair IED para formar capacidades básicas ao longo de toda a cadeia — design, produção, embalagem e teste —, atingir receitas anuais superiores a US$ 25 bilhões no setor e formar 50.000 engenheiros especializados, incluindo pelo menos 5.000 com expertise em inteligência artificial e 15.000 em design de circuitos integrados. Na segunda fase, de 2030 a 2040, a meta é dobrar a capacidade, atingir US$ 50 bilhões em receitas e avançar em direção à autossuficiência. Até 2050, o plano é ser líder mundial no setor — um objetivo que os próprios analistas externos descrevem como ambicioso, mas que serve como norte de política pública.

Para financiar a formação de talentos, o governo aprovou um projeto específico com investimento de aproximadamente US$ 1,08 bilhão, misturando recursos públicos e privados. O ponto de partida é modesto: em meados de 2024, o Vietnã tinha cerca de 5.000 engenheiros de semicondutores. Ao longo de 2025, esse número subiu para mais de 7.000 — com cerca de 1.000 novos profissionais formados principalmente por meio de requalificação de engenheiros de áreas afins. A meta de 50.000 até 2030 exigirá uma aceleração expressiva — e o governo está ciente disso.

PARCEIROS ESTRATÉGICOS: EUA, NVIDIA E O ECOSSISTEMA GLOBAL

Um dos motores dessa transformação é a Parceria Estratégica Abrangente firmada entre Vietnã e Estados Unidos em setembro de 2023 — uma das mais importantes viradas diplomáticas do país desde o fim do embargo americano nos anos 1990. No centro da parceria está justamente o setor de semicondutores: os EUA comprometeram-se a apoiar o desenvolvimento do ecossistema vietnamita de chips, a formação de engenheiros e a atração de investimentos americanos no setor.

Os resultados já são visíveis. A Nvidia assinou acordos com o governo vietnamita para expandir centros de pesquisa e desenvolvimento em inteligência artificial e semicondutores no país. A Qualcomm instalou seu terceiro maior centro global de P&D de IA em solo vietnamita. A Synopsys — líder mundial em software de automação de design eletrônico — firmou parceria com autoridades vietnamitas para criar um instituto de pesquisa em semicondutores. A Cadence, outra gigante do segmento de design, associou-se à FPT, à Universidade do Arizona e ao Centro Nacional de Inovação do Vietnã para formar engenheiros locais em padrões internacionais.

Em paralelo, empresas vietnamitas como FPT, Viettel e VNPT deixaram de ser apenas usuárias de tecnologia estrangeira e passaram a desenvolver capacidade própria. A FPT Semiconductor, criada em 2022, lançou seus primeiros chips “Made in Vietnam” e foi justamente ela que realizou a exportação para o Japão em dezembro de 2025 — um marco concreto de que o país está saindo do papel de montador para o de produtor intelectual de tecnologia.

OS DESAFIOS QUE PERMANECEM

O cenário é promissor, mas os obstáculos são reais. O principal deles é a escassez de engenheiros qualificados: passar de 7.000 para 50.000 em menos de cinco anos exigirá uma mobilização universitária e empresarial sem precedentes. O país reconhece o problema — a meta inclui formar 1.300 professores de padrão internacional e envolver mais de 200 instituições de ensino superior no programa.

A infraestrutura de laboratórios também precisa expandir. Design de chips exige equipamentos caros, software licenciado e ambientes controlados — investimentos que ainda estão em fase inicial fora dos grandes centros de Hanói e Ho Chi Minh City.

Por fim, há o desafio da capacitação em fabricação de wafers — o front-end da cadeia, onde os chips são de fato gravados em silício. Essa etapa requer investimentos da ordem de bilhões de dólares por fábrica (as chamadas fabs) e tecnologia de ponta que está concentrada em poucos países. O Vietnã ainda não tem nenhuma fab em operação, mas a meta de pelo menos uma unidade até 2030 está na estratégia — e o governo declarou, em agosto de 2025, a meta ousada de autossuficiência em design, fabricação e teste até 2027.

O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O BRASIL

O Vietnã ainda não é um concorrente do Brasil na cadeia de tecnologia — as economias são complementares, não competidoras, nesse setor. Mas a trajetória do país é relevante por dois motivos. Primeiro, como sinal do que está sendo valorizado: capital humano em tecnologia, formação de engenheiros, parcerias estratégicas com potências tecnológicas. O Brasil, que tem ambições semelhantes em áreas como fintechs, agrotechs e economia digital, pode aprender com o modelo vietnamita de atração de investimentos via política industrial clara e metas mensuráveis.

Segundo, como oportunidade de cooperação: a Parceria Estratégica Brasil-Vietnã de 2025 menciona explicitamente semicondutores, inteligência artificial e biotecnologia como áreas de interesse bilateral. À medida que o Vietnã constrói seu ecossistema de tecnologia, há espaço para colaboração em educação de engenharia, intercâmbio de pesquisadores e, no médio prazo, em cadeias de fornecimento de minerais críticos — área em que o Brasil tem reservas expressivas e crescente interesse internacional.

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