Em qualquer economia emergente, há um momento em que o crescimento geral começa a se concentrar: surgem conglomerados nacionais que acumulam capital, diversificam setores e passam a influenciar não apenas o mercado, mas a política econômica do país. No Vietnã, esse momento chegou na virada dos anos 2000 para os anos 2010 — e os protagonistas ficaram conhecidos informalmente como os “Five Sharks” (cinco tubarões): Vingroup, Hoa Phat, THACO, Masan Group e Sun Group. São empresas que nasceram das reformas do Đổi Mới, cresceram com a industrialização e a urbanização aceleradas, e hoje operam em escala que rivaliza com os grandes conglomerados asiáticos. Para empresários brasileiros que querem entender com quem estão negociando — ou com quem podem negociar — conhecer esses grupos é tão importante quanto conhecer o próprio governo vietnamita.
VINGROUP: O CONGLOMERADO QUE CONSTRUIU O VIETNÃ MODERNO
Se há uma empresa que sintetiza o Vietnã contemporâneo, é o Vingroup. Fundado em 1993 na Ucrânia por Pham Nhat Vuong — então um jovem empresário vietnamita que vendia macarrão instantâneo para a diáspora —, o grupo foi trazido para o Vietnã no início dos anos 2000 e se reinventou como uma máquina de construção urbana. Vinhomes, seu braço imobiliário, criou cidades inteiras: complexos residenciais com escolas, hospitais, shoppings e infraestrutura própria que hoje abrigam dezenas de milhares de famílias em Hanói, Ho Chi Minh City e Hai Phong.
Mas o Vingroup não parou no imobiliário. Em pouco mais de duas décadas, expandiu-se para saúde (VinMec — rede de hospitais de padrão internacional), educação (Vinschool — maior rede privada de ensino do país, com 27 campi e 23.000 alunos), hotelaria e resorts (Vinpearl), varejo (VinMart, posteriormente vendido ao Masan) e tecnologia (VinAI, VinBigData). O capítulo mais ambicioso — e mais arriscado — foi a criação da VinFast, fabricante de veículos elétricos listada na Nasdaq desde 2023. Em 2024, o Vingroup registrou receita líquida de US$ 7,5 bilhões, alta de 19% em relação ao ano anterior — recorde histórico —, com ativos totais de US$ 33,46 bilhões. Pham Nhat Vuong, que não recebe salário da empresa, é o homem mais rico do Vietnã com patrimônio estimado em US$ 7,7 bilhões pela Forbes.

HOA PHAT: O AÇO QUE SUSTENTA A INFRAESTRUTURA VIETNAMITA
Se o Vingroup construiu o lado visível do Vietnã moderno, o Hoa Phat forneceu boa parte da matéria-prima para isso. Fundado em 1992 como uma pequena trading de equipamentos de construção, o grupo se transformou na maior siderúrgica da ASEAN — com capacidade instalada que chegará a 16 milhões de toneladas de aço bruto ao final de 2026, quando o complexo Dung Quat 2 estiver em plena operação.
Os números de 2024 traduzem a escala: receita de US$ 16,76 bilhões — alta de 17% sobre o ano anterior —, lucro líquido de US$ 479 milhões (crescimento de 77%) e exportação de 2,63 milhões de toneladas de aço para mais de 40 países, incluindo Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos, Canadá e Europa. Em 2025, o grupo consolidou mais de 36% do mercado doméstico vietnamita de aço para construção — maior fatia de qualquer player nacional. Sua contribuição ao orçamento público em 2024 foi a maior em seus 32 anos de história: US$ 539 milhões em impostos, equivalente à receita fiscal combinada de seis províncias vietnamitas.

O Hoa Phat também diversificou. Além do aço, opera no agronegócio (criação de suínos e aves), imóveis e parques industriais. Seu presidente, Tran Dinh Long, tem patrimônio estimado em US$ 2,3 bilhões. Para empresas brasileiras do setor siderúrgico e de mineração — como fornecedoras de minério de ferro e carvão metalúrgico —, o Hoa Phat é um interlocutor natural e crescente.
THACO: O GRUPO QUE MONTOU O SETOR AUTOMOTIVO VIETNAMITA
O Truong Hai Auto Corporation — THACO — é o maior montador e distribuidor de automóveis do Vietnã, com presença em toda a cadeia: da importação e montagem de veículos das marcas Kia, Mazda, Peugeot e Foton até a distribuição por rede própria de concessionárias. A empresa foi fundada por Tran Ba Duong, considerado um dos maiores empreendedores do país, e construiu na cidade de Chu Lai, no centro do Vietnã, um dos maiores complexos industriais automotivos do Sudeste Asiático — uma espécie de cidade industrial dedicada à produção de veículos.

Em 2024, o grupo registrou lucro líquido de US$ 120 milhões, com ativos totais de US$ 7,5 bilhões. Embora enfrente desafios crescentes com a chegada de veículos elétricos chineses e a concorrência da VinFast, o THACO tem se reinventado: expandiu para agronegócio, logística e imóveis, e foi um dos concorrentes avaliados para o megaprojeto de ferrovia de alta velocidade que o governo vietnamita colocou em licitação em 2025. Para o Brasil, o THACO é relevante tanto como potencial importador de componentes automotivos quanto como referência de como um grupo industrial pode construir, literalmente do zero, uma cadeia produtiva completa num país em desenvolvimento.
MASAN GROUP: O GIGANTE DO CONSUMO DOMÉSTICO
Enquanto os outros “sharks” atuam predominantemente em infraestrutura, indústria pesada e imóveis, o Masan Group ocupa um território diferente: o estômago e a carteira do consumidor vietnamita. Fundado por Nguyen Dang Quang — que começou vendendo molho de peixe e macarrão instantâneo —, o grupo é hoje o maior conglomerado de bens de consumo e varejo do Vietnã.
Sua operação de varejo, a WinCommerce — absorvida do Vingroup em 2019 —, opera mais de 3.500 pontos de venda em todo o país sob as marcas WinMart e WinMart+. No segmento de alimentos, controla as marcas Chin-su (molho de peixe e condimentos), Omachi (macarrão premium) e Nam Ngu, que somam participações de mercado dominantes nas suas categorias. Em mineração, controla a Masan High-Tech Materials, líder global na produção de tungstênio e produtora de flúor, bismuto e outros minerais críticos. Em serviços financeiros, é sócia da Techcombank, um dos maiores bancos privados do Vietnã.

Para empresários brasileiros, o Masan é particularmente relevante como potencial parceiro ou comprador: o grupo é importador de proteínas animais, milho, soja e outros insumos alimentícios — exatamente o que o Brasil produz em larga escala. Além disso, sua plataforma de varejo é um canal de distribuição para qualquer produto de consumo que queira chegar ao consumidor vietnamita.
SUN GROUP: O ARQUITETO DO TURISMO E DA INFRAESTRUTURA
O Sun Group é o menos conhecido fora do Vietnã entre os cinco, mas quem visita o país dificilmente escapa de sua presença. O grupo é o maior operador de parques temáticos, resorts de luxo, teleféricos e atrações turísticas do Vietnã — incluindo o teleférico de Ba Na Hills, em Da Nang, e o complexo de Phu Quoc, que transformou uma ilha praticamente desconhecida numa das principais destinações turísticas do Sudeste Asiático.

Além do turismo, o Sun Group atua em incorporação imobiliária de alto padrão e, mais recentemente, em infraestrutura de aviação: opera o aeroporto de Van Don, no norte do país, e tem projetos em aeroportos e infraestrutura de transporte. Em setembro de 2025, o grupo co-organizou com a Embaixada dos EUA no Vietnã um painel de parceria na aviação, reunindo 15 corporações americanas do setor — sinal de sua crescente ambição no segmento. Para o Brasil — que tem no turismo uma das maiores oportunidades bilaterais ainda inexploradas —, o Sun Group é o interlocutor natural: é quem opera as plataformas que recebem turistas estrangeiros e quem está construindo a infraestrutura que os conecta ao país.
O QUE OS CINCO TÊM EM COMUM — E O QUE OS DIFERENCIA
Mais do que o tamanho, o que une esses cinco conglomerados é a origem: todos nasceram de empreendedores individuais que aproveitaram as janelas abertas pelo Đổi Mới, construíram suas empresas sem apoio estatal significativo e diversificaram de forma agressiva conforme o mercado vietnamita se expandia. Juntos, o trio Vingroup, THACO e Hoa Phat responde por mais de um terço das contribuições tributárias privadas do país.
A diferença entre eles está no perfil de parceria que oferecem. O Vingroup é o interlocutor para tecnologia, urbanismo e veículos elétricos. O Hoa Phat, para mineração, siderurgia e insumos industriais. O THACO, para automóveis e logística. O Masan, para bens de consumo, varejo e proteínas animais. O Sun Group, para turismo e infraestrutura aeroportuária. Para empresários brasileiros que chegam ao Vietnã, saber em qual desses ecossistemas seu produto ou serviço melhor se encaixa é o primeiro passo para identificar o parceiro certo — e a BVC tem o papel exatamente de facilitar essa aproximação.











