Em março de 2008, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou Hanói pela primeira vez. O comércio bilateral entre Brasil e Vietnã somava US$ 534 milhões naquele ano — um número relevante para a época, mas modesto diante do potencial dos dois países. Dezessete anos depois, Lula voltou a Hanói. O comércio bilateral tinha chegado a US$ 7,7 bilhões em 2024. Quatorze vezes maior. E o presidente brasileiro assinou, ao lado do presidente vietnamita Luong Cuong, o Plano de Ação para Implementação da Parceria Estratégica 2025–2030 — com uma meta clara: dobrar o volume, chegando a US$ 15 bilhões até o final da década.
Esse arco de crescimento não foi acidente. Foi o resultado de complementaridade econômica real, de uma relação diplomática construída com paciência ao longo de décadas e de um alinhamento geopolítico entre dois países emergentes que compartilham uma visão de mundo multipolar, não alinhado e favorável ao multilateralismo. Para o setor privado brasileiro, esse contexto cria a janela de oportunidades mais concreta da história da relação bilateral — e entendê-la é o objetivo deste artigo.
O QUE O BRASIL VENDE AO VIETNÃ
A estrutura das exportações brasileiras ao Vietnã reflete uma complementaridade que dificilmente poderia ser mais clara: o Brasil é o celeiro que alimenta a máquina industrial vietnamita.
O Vietnã é o quinto maior destino dos produtos agropecuários brasileiros. O Brasil fornece aproximadamente 70% de toda a soja importada pelo Vietnã — insumo fundamental para a cadeia de proteína animal do país, cuja aquicultura e pecuária suína e avícola estão entre as maiores da Ásia. Além da soja, o Brasil é o principal fornecedor de carne suína ao Vietnã (cerca de 37% do total importado), o segundo maior fornecedor de carne de frango e de algodão, e exporta ainda milho, trigo, minerais e couros. Em 2024, o superávit brasileiro na balança bilateral foi de US$ 415 milhões — sinal de que o Brasil vende mais do que compra, mas com uma diferença menor do que se poderia imaginar dado o perfil das trocas.
Em março de 2025, o Fórum Econômico Brasil-Vietnã realizado em Hanói reuniu empresários dos setores de bioenergia, proteína animal, alimentos, pesquisa agropecuária, logística, aviação, têxtil e mineração. A presença da Embraer foi um dos destaques: Lula propôs que a Vietnam Airlines avalie a aquisição de jatos da família E-Jets para ampliar a conectividade regional — e a proposta inclui a instalação de um centro de treinamento e manutenção em solo vietnamita. É um sinal de que o Brasil quer ir além do agronegócio e inserir produtos industriais de alto valor agregado na pauta exportadora bilateral.
O QUE O VIETNÃ VENDE AO BRASIL
A pauta de importações brasileiras do Vietnã é igualmente reveladora — e tende a surpreender quem imagina que o fluxo é apenas de commodities agrícolas em uma direção. Em 2024, as exportações vietnamitas ao Brasil somaram aproximadamente US$ 2,59 bilhões, dominadas por máquinas e equipamentos elétricos (US$ 1,02 bilhão — principalmente smartphones e componentes eletrônicos), borracha e seus derivados (US$ 328 milhões), reatores nucleares e maquinário (US$ 220 milhões), além de calçados, têxteis, frutos do mar e produtos siderúrgicos.
O fluxo inverso também existe e é crescente: empresas vietnamitas como a Vifon Group e a Tan Nhat Huong Company já identificaram o Brasil como destino prioritário para suas exportações — atraídas pelo tamanho do mercado consumidor brasileiro, pelo padrão regulatório compatível com o internacional e pelo espaço ainda pouco explorado para produtos vietnamitas nas prateleiras do varejo nacional.

A PARCERIA ESTRATÉGICA: O QUE MUDOU DE FATO
A elevação das relações ao nível de Parceria Estratégica foi formalizada em dois momentos. O primeiro foi em novembro de 2024, à margem da Cúpula do G20 no Rio de Janeiro, quando o presidente Lula e o primeiro-ministro Pham Minh Chinh anunciaram o novo status — tornando o Vietnã apenas o segundo país do Sudeste Asiático a ter essa distinção com o Brasil, depois da Indonésia. O segundo foi em março de 2025, com a assinatura em Hanói do Plano de Ação 2025–2030, que traduz a parceria em metas e mecanismos concretos.
O Plano de Ação cobre sete eixos: diálogo político e diplomático; economia, comércio e investimentos; agricultura e segurança alimentar; ciência, tecnologia e inovação; meio ambiente e sustentabilidade; transição energética; e cooperação sociocultural. Em cada eixo, há compromissos mensuráveis. No comercial, a meta de US$ 15 bilhões até 2030. No agrícola, a abertura formal do mercado vietnamita à carne bovina brasileira — um avanço histórico, considerando que o Vietnã até então importava bovina de apenas um pequeno grupo de países. No científico, parcerias em semicondutores, inteligência artificial, biotecnologia e energias renováveis. No cultural, o Memorando de Entendimento entre a Federação de Futebol do Vietnã e a Confederação Brasileira de Futebol — um símbolo de quanto os dois países querem aproximar seus povos, não apenas seus governos.
Além dos acordos bilaterais, o Brasil anunciou em Hanói o interesse em aproximar o Vietnã do Mercosul. A presidência brasileira do bloco, iniciada em julho de 2025, foi apresentada como uma oportunidade para avançar nessa direção — o que criaria um corredor de comércio preferencial entre a América do Sul e o Sudeste Asiático de escala histórica.
O Vietnã, por sua vez, tornou-se parceiro do BRICS em junho de 2025 — fórum do qual o Brasil é membro fundador — aprofundando ainda mais o alinhamento multilateral entre os dois países.
AS OPORTUNIDADES CONCRETAS PARA O SETOR PRIVADO BRASILEIRO
O mapa de oportunidades para empresas brasileiras no Vietnã é diversificado e vai muito além do que já existe.
No agronegócio, a abertura do mercado à carne bovina é o marco mais imediato. Lula sugeriu explicitamente que frigoríficos brasileiros avaliem instalar operações no Vietnã, usando o país como plataforma de exportação para o Sudeste Asiático — um modelo que, se implementado, multiplicaria o impacto bilateral. O mercado de suplementos e alimentos funcionais, a cafeicultura (Brasil e Vietnã são os dois maiores produtores mundiais de café, e há agenda de cooperação em pesquisa para resistência climática) e os produtos de valor agregado derivados de soja são outros vetores de crescimento.
Na aviação, a proposta da Embraer é apenas a ponta visível de um setor com enorme potencial: o Vietnã está construindo novos aeroportos, ampliando rotas e consolidando sua aviação regional — e precisa de aeronaves do porte exatamente em que a Embraer é líder global.
Na energia, o Brasil tem décadas de experiência em biocombustíveis — etanol, biodiesel, bioenergia — que o Vietnã quer replicar em sua própria transição energética. A cooperação em energia eólica, solar e, especialmente, em hidrogênio verde foi mencionada explicitamente no Plano de Ação.
Na mineração, o Brasil detém reservas expressivas de minerais críticos para a cadeia de semicondutores e baterias — nióbio, lítio, terras raras — que o Vietnã demandará crescentemente à medida que sobe na cadeia de tecnologia.
No turismo, o potencial é enorme e ainda quase inexplorado nos dois sentidos: brasileiros que visitam o Vietnã e vietnamitas que visitam o Brasil. O Sun Group, maior operador turístico vietnamita, e operadoras brasileiras têm interesse mútuo em estruturar rotas e produtos para esses fluxos.
O PAPEL DA BVC NESSE CONTEXTO
A Brazil Vietnam Chamber (BVC) foi criada justamente para ser o elo entre essa agenda diplomática e a prática dos negócios. Enquanto governos assinam planos de ação e estabelecem metas, é o setor privado que as realiza — e é entre esse setor que a BVC atua: conectando empresas brasileiras a parceiros vietnamitas, orientando sobre regulação e acesso a mercado, facilitando missões e representando os interesses bilaterais nos dois países.

O Fórum Econômico Brasil-Vietnã de março de 2025 contou com representantes da Câmara de Comércio e Indústria Brasil Vietnã entre os participantes — sinal de que a BVC está no centro dessa agenda, não nas suas margens.
UM PARCEIRO QUE O BRASIL AINDA SUBESTIMA
Em 2024, o Brasil exportou mais para o Vietnã do que para Portugal, Reino Unido e França. Essa frase, dita pelo próprio presidente brasileiro em Hanói, sintetiza o quanto a percepção pública ainda está atrasada em relação à realidade econômica da relação bilateral. O Vietnã não é mais um destino exótico ou periférico para os negócios brasileiros: é o maior parceiro do Brasil na ASEAN, um país de 100 milhões de pessoas em acelerada ascensão econômica, membro de 17 acordos de livre comércio e candidato a parceiro do Mercosul.
A série Vietnã em Perspectiva partiu do Đổi Mới — a reforma que tudo mudou em 1986 — e chegou até aqui: uma relação bilateral que cresceu 14 vezes em menos de duas décadas e que tem metas, instrumentos e vontade política para crescer mais. Para empresas brasileiras que ainda não olharam para o Vietnã com atenção, o momento é agora. Para as que já estão lá, o momento é de aprofundar. A BVC está disponível para apoiar esse processo em todas as suas etapas.












