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Em 19 de dezembro de 2025, às 8h10 da manhã, um Boeing 787-9 da Vietnam Airlines pousou no Aeroporto Internacional de Long Thanh, em Dong Nai, a 40 quilômetros de Ho Chi Minh City. Era o primeiro voo oficial da nova estrutura — o maior aeroporto do Vietnã, com capacidade projetada de 100 milhões de passageiros anuais quando totalmente concluído, e investimento total de US$ 18,7 bilhões. No mesmo dia, o governo vietnamita lançou um pacote de 234 grandes projetos de infraestrutura em todo o país, com investimento total superior a US$ 129 bilhões. Duas semanas antes, a Linha 1 do Metrô de Ho Chi Minh City havia sido inaugurada — após quase duas décadas de atrasos, obras paralisadas e negociações de financiamento. A semana de lançamento registrou mais de 500.000 passageiros em seis dias.

Esses episódios, concentrados em poucos dias de dezembro, não foram coincidência. Foram o resultado de uma decisão política deliberada: o governo vietnamita declarou 2025 como o “ano da infraestrutura” e mobilizou recursos públicos e privados em escala sem precedentes. Para quem faz negócios com o Vietnã — ou pretende fazê-lo —, o que está sendo construído agora define as condições de acesso ao país na próxima década.

METRÔ: DE PROJETO ETERNO A REALIDADE EM OPERAÇÃO

Durante anos, os metrôs de Hanói e Ho Chi Minh City foram o símbolo dos atrasos crônicos da infraestrutura vietnamita. A Linha 1 de HCMC, por exemplo, foi anunciada em 2007, teve obras iniciadas em 2012, e só entrou em operação comercial em dezembro de 2024 — quase duas décadas depois da concepção original. O custo final foi de US$ 1,9 bilhão, financiado com empréstimo da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA). Com 19,7 quilômetros e 14 estações, a linha conecta o centro histórico da cidade (Ben Thanh) ao distrito leste de Thu Duc — e a capacidade diária projetada é de 150.000 passageiros.

Mas o mais relevante não é a linha já inaugurada — é o que vem a seguir. Ho Chi Minh City tem um plano de oito linhas de metrô totalizando 220 quilômetros até 2030, com investimento projetado de mais de US$ 25 bilhões. A Linha 2 (Ben Thanh–Tham Luong) está em obras. O governo da cidade propôs, em dezembro de 2025, adicionar cinco novas linhas que conectarão o sistema ao novo Aeroporto de Long Thanh, às províncias vizinhas de Binh Duong e Ba Ria-Vung Tau — resultado da fusão administrativa que expandiu os limites metropolitanos da cidade. Em paralelo, um projeto de US$ 13 bilhões co-apoiado por EUA e França desenvolve um corredor integrado de metrô e ferrovia regional que ligará o Aeroporto de Tan Son Nhat, o centro histórico, o novo distrito financeiro de Thu Thiem e Long Thanh numa única rede operacional até 2030.

Em Hanói, a situação é similar. A linha Cat Linh–Ha Dong, em operação desde 2021, carrega mais de 50.000 passageiros diários. A Linha 2 (Nam Thang Long–Tran Hung Dao) teve obras iniciadas em 2025, com investimento de US$ 1,45 bilhão. A Linha 3 está sendo projetada para conectar o centro da cidade ao Aeroporto Internacional de Noi Bai até 2030. O governo federal aprovou mecanismos legislativos especiais para comprimir os prazos de licenciamento e desapropriação urbana — acelerando um processo que historicamente levava anos.

AEROPORTOS: EXPANSÃO EM TODAS AS FRENTES

Long Thanh é o projeto-símbolo, mas está longe de ser o único. O Terminal 3 do Aeroporto de Tan Son Nhat — o mais movimentado do país — foi concluído em 2025, elevando a capacidade total do aeroporto para aproximadamente 50 milhões de passageiros anuais. Em Hanói, a expansão do Terminal 2 do Aeroporto de Noi Bai foi concluída em 2025, ampliando a capacidade de 10 para 15 milhões de passageiros anuais, com potencial de 18 milhões. Da Nang, principal hub do Vietnã central, processou 13,4 milhões de passageiros em 2024 e figura entre os 100 melhores aeroportos do mundo pelo ranking Skytrax.

O setor de aviação cresceu 22.566 voos em 2025 em relação ao ano anterior, totalizando 275.246 operações, com 83,5 milhões de passageiros transportados — número projetado para subir para 95 milhões em 2026. A rota Hanói–Ho Chi Minh City foi classificada como a quarta mais movimentada do mundo em 2025, com cerca de 11 milhões de assentos operados por seis companhias aéreas.

PORTOS: CONEXÃO DIRETA COM EUROPA E ESTADOS UNIDOS

No setor portuário, o avanço mais significativo foi a inauguração dos Terminais 3 e 4 do Porto de Lach Huyen, em Hai Phong, em 2025. Com capacidade combinada de 1,5 milhão de TEUs anuais e estrutura para receber os maiores navios porta-contêineres do mundo, os novos terminais eliminaram uma lacuna histórica: pela primeira vez, cargas de exportação vietnamitas podem ser embarcadas diretamente para a Europa e os Estados Unidos sem transbordo em portos intermediários como Cingapura ou Hong Kong. A redução de tempo e custo logístico é expressiva — e beneficia diretamente exportadores de eletrônicos, têxteis e produtos agrícolas que dependem de prazo e preço para competir nos mercados ocidentais.

No sul, o Porto de Can Gio — um hub de transbordo internacional — recebeu aprovação de princípio do governo em janeiro de 2025 para um investimento de US$ 1,97 bilhão. Em Da Nang, as obras do Porto de Lien Chieu estão em andamento: o megacontêiner portuário abrirá um novo espaço logístico para o Corredor Econômico Leste-Oeste que conecta o Vietnã ao Laos, à Tailândia e ao Myanmar.

RODOVIAS E FERROVIA DE ALTA VELOCIDADE

Ao final de 2025, o Vietnã contava com 3.803 quilômetros de rodovias expressas — superando a meta de 3.000 km — com plano de chegar a 5.000 km até 2030. Nos últimos cinco anos, foram concluídos quase 2.000 quilômetros, praticamente dobrando a malha da década anterior. O Anel Viário 4 de Hanói e o Anel Viário 3 de Ho Chi Minh City foram parcialmente abertos ao tráfego em 2025, aliviando a pressão logística nos dois maiores centros urbanos.

O projeto mais ambicioso — e mais debatido — é a Ferrovia de Alta Velocidade Norte-Sul: uma linha de 1.500 quilômetros conectando Hanói a Ho Chi Minh City, com velocidade de projeto de 350 km/h, estimativa de investimento de US$ 67 bilhões e prazo de conclusão em 2035. O projeto foi aprovado pelo Parlamento em novembro de 2024 e já atraiu interesse de construtoras chinesas, japonesas e europeias. O Vingroup chegou a registrar interesse em participar, mas retirou o nome em dezembro de 2025, declarando querer focar recursos em outros projetos estratégicos. O THACO, por sua vez, capitalizou-se nesse período — possivelmente para concorrer ao projeto.

ZONAS INDUSTRIAIS: A INFRAESTRUTURA QUE ATRAI FÁBRICAS

Paralelo a toda essa movimentação em transporte, o Vietnã opera hoje mais de 400 zonas industriais distribuídas por todo o território nacional — a maioria delas dotadas de infraestrutura dedicada de energia, água, telecomunicações e logística. As mais importantes concentram-se nas províncias do norte (Bac Ninh, Bac Giang, Hung Yen), que abrigam as fábricas da Samsung e de seus fornecedores, e no sudeste (Binh Duong, Dong Nai, Ba Ria-Vung Tau), polo industrial histórico próximo a Ho Chi Minh City.

Novos complexos industriais de última geração estão sendo desenvolvidos: o Vingroup iniciou em 2025 a construção de um complexo olímpico e urbano de 9.171 hectares no sul de Hanói, com investimento de US$ 38 bilhões — o maior projeto de desenvolvimento urbano da história do país.

O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O BRASIL

A expansão de infraestrutura do Vietnã cria oportunidades diretas e indiretas para empresas brasileiras em vários setores. Na construção civil e engenharia, há espaço para exportação de equipamentos, materiais e tecnologia de construção — o Brasil tem experiência reconhecida em metrôs, aeroportos e obras de grande porte. No setor de logística, a melhora dos portos e rodovias facilita e reduz o custo do escoamento de exportações brasileiras para o mercado vietnamita. No agronegócio, portos mais eficientes significam menor custo de importação de soja, milho e proteínas animais — o que pode ampliar o volume das compras vietnamitas de produtos brasileiros.

Por fim, há a lição de modelo: o Vietnã está usando infraestrutura como vetor de desenvolvimento regional, distribuindo crescimento para além das duas grandes metrópoles e criando novos polos econômicos ao longo de corredores logísticos. É uma estratégia que empresários e gestores públicos brasileiros reconheceriam — e da qual poderiam aprender.

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