Quando a Samsung decidiu, em 2008, transferir sua produção de smartphones da China para o Vietnã, poucos imaginavam o que aquela decisão inauguraria. Hoje, a empresa sul-coreana responde sozinha por quase metade dos smartphones fabricados no país e é um dos maiores investidores estrangeiros em território vietnamita. O que a Samsung enxergou cedo, dezenas de outras multinacionais confirmaram nas duas décadas seguintes: o Vietnã se tornou o destino preferencial da estratégia conhecida como “China + 1” — a diversificação das cadeias produtivas globais para além das fronteiras chinesas. Para empresários brasileiros, entender essa transformação é entender com quem estão competindo, com quem podem colaborar — e onde as oportunidades estão.
O QUE É A ESTRATÉGIA “CHINA + 1”
A expressão “China + 1” descreve a decisão de empresas globais de manter operações na China, mas adicionar uma segunda base de produção em outro país — para reduzir riscos geopolíticos, diversificar a cadeia de suprimentos e escapar de tarifas. O movimento ganhou força durante a guerra comercial entre os EUA e a China iniciada no primeiro governo Trump, acelerou com as disrupções logísticas da pandemia de Covid-19 e voltou a se intensificar em 2025, com a ameaça de novas tarifas americanas.
O Vietnã reuniu um conjunto raro de vantagens para se tornar o principal beneficiário dessa estratégia: custos de mão de obra competitivos, força de trabalho jovem (mais de metade da população tem menos de 35 anos), estabilidade política, localização geográfica estratégica próxima à China e uma rede crescente de acordos de livre comércio que facilita o acesso a mercados globais. Não por acaso, o país registrou IED (investimento estrangeiro direto) de mais de US$ 36 bilhões em 2024 — um dos maiores volumes da sua história.
ELETRÔNICOS: O SETOR QUE DEFINE O VIETNÃ INDUSTRIAL
O setor de eletrônicos é hoje o coração da indústria vietnamita. Em 2024, as exportações do setor superaram US$ 125 bilhões, respondendo por mais de 30% do total exportado pelo país, segundo a Associação da Indústria Eletrônica do Vietnã (VEIA). O número é ainda mais expressivo quando se considera que, há menos de duas décadas, o Vietnã praticamente não existia no mapa global de eletrônicos.
A Samsung é o caso mais emblemático. Após fechar suas últimas fábricas de celular na China em 2019, a empresa construiu no Vietnã um complexo industrial de escala raramente vista: hoje, metade de todos os smartphones Samsung do mundo é fabricada no país, sobretudo na província de Bac Ninh, a 50 quilômetros de Hanói. A Apple seguiu trajetória similar: em 2024, o país contava com 35 fornecedores diretos da empresa — tornando o Vietnã o quarto maior hub de fornecedores da Apple no mundo, atrás apenas de China, Taiwan e Japão. Desde 2019, a Apple investiu aproximadamente US$ 15,8 bilhões via cadeia de fornecimento local, gerando cerca de 200.000 empregos. Projeta-se que, até 2025, o Vietnã seja responsável por 65% da produção mundial de AirPods, 20% dos iPads e Apple Watches e 5% dos MacBooks.
A Intel, por sua vez, opera no país desde 2006 e expandiu continuamente sua presença. Em 2024, os fornecedores da empresa no Vietnã geraram exportações estimadas em dezenas de bilhões de dólares em chipsets, semicondutores e componentes eletrônicos.
ALÉM DOS ELETRÔNICOS: TÊXTEIS, CALÇADOS E MÓVEIS
A indústria eletrônica concentra os holofotes, mas não é o único pilar da manufatura vietnamita. O setor têxtil e de vestuário gerou mais de US$ 44 bilhões em exportações em 2024, tornando o Vietnã o segundo maior exportador mundial de roupas prontas — atrás apenas da China. Marcas globais como Nike, Adidas e H&M deslocaram parte significativa de sua produção para o país nas últimas duas décadas.
O setor calçadista exportou US$ 24 bilhões em 2024, com crescimento de mais de 60% em relação ao ano anterior. O segmento de móveis e produtos de madeira somou US$ 16,3 bilhões. Juntos, esses setores empregam milhões de vietnamitas e compõem uma base industrial diversificada que vai muito além da montagem de eletrônicos.
No total, as exportações do Vietnã atingiram US$ 355 bilhões em 2024 — recorde histórico —, com a manufatura respondendo por quase 25% do PIB do país, segundo dados de 2025.

O DESAFIO DE SUBIR NA CADEIA DE VALOR
Apesar do crescimento impressionante, o Vietnã enfrenta um desafio estrutural: a maior parte de sua participação nas cadeias globais ainda se concentra na etapa de montagem final — a de menor valor agregado. Componentes críticos, como chips de alta performance e módulos de câmera avançados, ainda vêm predominantemente da China, Taiwan, Coreia do Sul e Japão.
O governo vietnamita tem consciência disso e traçou metas ambiciosas: formar 50.000 engenheiros de semicondutores até 2030, atrair investimentos em design de chips e expandir a produção de placas de circuito impresso, sensores e componentes ópticos. A parceria estratégica firmada com os EUA em 2023 tem como eixo central justamente o desenvolvimento do setor de semicondutores — posicionando o Vietnã não apenas como montador, mas como participante ativo da cadeia de tecnologia avançada.
O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O BRASIL
Para empresas brasileiras, o Vietnã industrial apresenta dois tipos de oportunidade. A primeira é a de fornecimento: o país é um importador crescente de matérias-primas e insumos — e o Brasil, como grande produtor de minérios, plásticos, produtos químicos e componentes industriais, tem espaço para ampliar sua presença nesse mercado de suprimentos. A segunda é a de parceria produtiva: à medida que o Vietnã sobe na cadeia de valor e desenvolve capacidade em tecnologia, surgem oportunidades de colaboração em inovação, engenharia e transferência de conhecimento entre os dois países.
O Brasil exportou mais para o Vietnã em 2024 do que para Portugal, Reino Unido e França — e a Parceria Estratégica assinada em 2025 com meta de US$ 15 bilhões até 2030 sinaliza que esse corredor comercial tem muito espaço para crescer. Conhecer a estrutura industrial vietnamita é o primeiro passo para identificar onde o Brasil pode ocupar um lugar nessa cadeia.





