Em 21 de abril, o Centro de Promoção de Comércio e Investimento de Ho Chi Minh City (ITPC) sediou o seminário “Perspectivas de Exportação para o Mercado Brasileiro: Oportunidades e Desafios para as Empresas Vietnamitas”. O evento reuniu especialistas do setor público e da iniciativa privada com um objetivo claro: mostrar ao empresário vietnamita como transformar interesse em operação real no maior mercado da América Latina.
A abertura coube a Le Anh Hoang, vice-diretor do ITPC, que enquadrou o encontro no contexto geopolítico atual: a instabilidade global e as interrupções nas rotas de transporte estão impondo uma urgência real à diversificação de mercados. Nesse cenário, o Brasil surge como alternativa estratégica: maior economia da América Latina, com mais de 200 milhões de habitantes, alto poder de compra e menor exposição direta às tensões geopolíticas que afetam outros destinos.
Os números justificam a atenção. O intercâmbio comercial bilateral atingiu cerca de US$ 8 bilhões em 2025, com exportações vietnamitas somando aproximadamente US$ 2,7 bilhões. A meta dos dois países é alcançar US$ 15 bilhões até 2030, um salto que exige estrutura, conhecimento de mercado e parcerias concretas. Mesmo assim, os especialistas foram enfáticos: o resultado atual ainda é desproporcional ao potencial. O Brasil importa entre US$ 250 e US$ 300 bilhões por ano de diferentes origens, e a fatia vietnamita continua pequena.
Dionathan Santos, presidente executivo do escritório da BVC no Vietnã, conduziu a sessão mais prática do evento. Com foco no que acontece depois do briefing macroeconômico, Santos apresentou os cinco perfis de importador brasileiro que as empresas vietnamitas precisam aprender a identificar, apresentou o banco de dados federal CIB, de acesso público, como ferramenta para verificação de parceiros, e alertou para as diferenças na dinâmica de comunicação e tomada de decisão do comprador brasileiro. A mensagem central: preços calibrados para o mercado europeu não funcionam na prateleira brasileira.
Victor Key, presidente da Brazil Vietnam Chamber (BVC), e Pham Hong Trang, adida comercial do Vietnã no Brasil, participaram do Brasil Online, evento que conectou empresários e autoridades em tempo real entre os dois países. Pham Hong Trang reforçou a análise de que o Brasil não é apenas um mercado consumidor de grande escala: é também a porta de entrada para o MERCOSUR, bloco que reúne mais de 300 milhões de pessoas. Os setores com maior potencial de crescimento identificados pela adida incluem frutos do mar, alimentos processados, têxteis e componentes eletrônicos. As ressalvas, porém, são igualmente relevantes: tarifas elevadas fora do bloco, exigência de rotulagem em português, e certificações setoriais específicas como MAPA para produtos agropecuários, ANVISA para saúde e cosméticos, e INMETRO para industrializados.
O evento também formalizou um marco para a presença vietnamita na América Latina. O ITPC anunciou o envio da primeira delegação empresarial vietnamita à APAS Show, maior feira de alimentos e varejo da América Latina, que ocorre em São Paulo entre 18 e 21 de maio. A participação representa a entrada do Vietnã em um dos principais eventos do setor de alimentos e bebidas do hemisfério sul.
A janela estratégica que o seminário descreveu tem fundamentos concretos: Parceria Estratégica assinada em novembro de 2024, reconhecimento de economia de mercado concedido em março de 2025, reabertura do mercado de tilápia em abril de 2025 e início das negociações do Acordo de Comércio Preferencial MERCOSUR-Vietnã em dezembro de 2025. Em mais de 35 anos de relações diplomáticas, o momento atual não tem precedente.





