O governo do Vietnã formalizou a conclusão dos planos de expansão para novos terminais portuários de águas profundas, visando uma redução drástica nos custos de armazenagem e movimentação de carga granel até o final de 2026. A medida, coordenada pelo Ministério dos Transportes do país, impacta diretamente a competitividade das exportações brasileiras de grãos, que utilizam a infraestrutura vietnamita como entreposto estratégico para o Sudeste Asiático. A iniciativa faz parte do Plano Diretor de Desenvolvimento do Sistema Portuário para o período 2021-2030, consolidando o Vietnã como o principal hub logístico da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).
Segundo dados divulgados pelo portal oficial VietnamPlus, os novos terminais nos complexos de Lạch Huyện (em Haiphong, no norte) e Cái Mép-Thị Vải (no sul) receberam investimentos que superam os US$ 1,5 bilhão em tecnologias de automação e silos de alta capacidade. Para o exportador brasileiro, o impacto é mensurável: a previsão é de uma queda de 15% nos custos logísticos operacionais no desembarque de soja e milho. Historicamente, o Vietnã apresentava custos logísticos que consumiam cerca de 18% do seu Produto Interno Bruto (PIB), mas as metas governamentais para 2026 estabelecem a redução deste patamar para 12%, aproximando-se de padrões globais de eficiência.
A modernização desses terminais resolve um gargalo histórico de calado, permitindo que navios de classe Post-Panamax, com capacidade superior a 150 mil toneladas, atraquem com carga total. Anteriormente, muitas embarcações provenientes dos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR) precisavam realizar o transbordo em hubs intermediários, como Singapura, o que elevava o valor final da saca de grãos e alongava o tempo de trânsito em até dez dias. Com a operação plena das novas zonas de livre comércio adjacentes aos portos, o processamento aduaneiro passou a ser digitalizado, reduzindo o tempo de liberação de cargas agrícolas de quatro dias para apenas algumas horas.
Victor Key, Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil Vietnã (BVC), baseado em São Paulo, avalia que este movimento sinaliza uma maturidade logística sem precedentes no Sudeste Asiático. “A expansão portuária vietnamita não é apenas uma obra de engenharia civil, mas uma reconfiguração das rotas comerciais globais”, afirma Key. O executivo destaca que a missão da BVC é assegurar que o empresariado brasileiro compreenda que o Vietnã deixou de ser apenas um mercado de destino final para se tornar a plataforma de redistribuição de commodities para o restante da Ásia, incluindo mercados de difícil acesso no interior da China e do Camboja.
A tendência de verticalização da infraestrutura no Vietnã guarda paralelos com o desenvolvimento observado na Coreia do Sul na década de 1990, quando investimentos massivos em terminais especializados em Busan transformaram a economia coreana. O Vietnã replica este modelo, focando na integração entre portos e ferrovias. De acordo com o Vietnam Investment Review, o projeto inclui a construção de ramais ferroviários que ligam os novos terminais às zonas industriais de Bắc Ninh e Đồng Nai, facilitando o fluxo de farelo de soja para a robusta indústria de proteína animal vietnamita, uma das que mais crescem no mundo.
O mercado de grãos brasileiro, que em 2025 já havia batido recordes de embarques para Hanói e Ho Chi Minh, encontra agora um cenário de menor volatilidade nos preços de estocagem. Durante o período do Tết (Ano Novo Lunar vietnamita), quando o comércio tradicionalmente sofre desaceleração, a nova capacidade de armazenagem fria e seca dos terminais permite que o fluxo de importações brasileiras não sofra interrupções, garantindo um suprimento constante para o mercado interno vietnamita sem a cobrança de taxas extraordinárias por sobreestadia de contêineres e navios (demurrage).
Para o empresário brasileiro, o novo cenário exige uma revisão das estratégias de precificação e distribuição. O aumento da eficiência nos portos do Vietnã permite que contratos de longo prazo sejam firmados com maior previsibilidade de margem. Especialistas apontam que a descentralização dos portos — com investimentos não apenas no sul, mas também na região central, em Da Nang — cria uma rede de capilaridade que favorece o agronegócio do Brasil, que hoje detém a liderança no fornecimento de milho e algodão para as indústrias têxtil e de ração do país asiático.
Em termos comparativos regionais, o Vietnã agora supera competidores como Tailândia e Indonésia em infraestrutura portuária dedicada a granéis sólidos. Enquanto vizinhos da ASEAN enfrentam congestionamentos em portos saturados, o Vietnã antecipou a demanda global por alimentos ao expandir sua capacidade instalada antes mesmo do pico de exportações projetado para a segunda metade da década. Esse planejamento estatal, aliado à estabilidade macroeconômica, coloca o país em uma posição de vantagem para atrair tradings internacionais que buscam mitigar riscos logísticos.
A perspectiva para o biênio 2026-2027 é de consolidação dessa parceria bilateral. À medida que o Vietnã fortalece sua base logística, abre-se espaço para que o Brasil diversifique sua pauta exportadora para além das commodities brutas, incluindo produtos processados e de maior valor agregado, que agora contam com uma malha de distribuição ágil e de baixo custo. A Brazil Vietnam Chamber reitera que o momento é de ocupação estratégica desses novos espaços, aproveitando o “tapete vermelho” logístico estendido pelo governo vietnamita aos parceiros sul-americanos.
O fortalecimento desta infraestrutura é o elo final para que o comércio entre as duas nações ultrapasse novas metas bilionárias. Com a redução dos custos portuários, o produto brasileiro torna-se mais competitivo no prato do consumidor vietnamita e nas fábricas de processamento. Para o Brasil, o Vietnã deixa de ser um mercado distante para se consolidar como o porto seguro da produção nacional em solo asiático, garantindo que a eficiência do campo brasileiro seja acompanhada por uma logística de recepção à altura de sua excelência produtiva.












