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Vietnã e acordos comerciais estratégicos: como o país construiu acesso preferencial a 60% da economia global

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Há uma pergunta que investidores e exportadores de todo o mundo começaram a fazer com mais frequência na última década: por que o Vietnã? Por que, entre todos os países emergentes da Ásia, é o Vietnã que atrai as fábricas da Samsung e da Apple, que cresce a 7% ao ano, que dobra suas exportações a cada ciclo? Parte da resposta está na força de trabalho, na estabilidade política e na herança do Đổi Mới — temas dos artigos anteriores desta série. Mas há outro fator, menos visível e igualmente decisivo: o Vietnã construiu, de forma deliberada e acelerada, uma das redes de acordos comerciais mais abrangentes do mundo. Com 18 acordos bilaterais e multilaterais ativos ou em negociação, o país garante acesso preferencial a mercados que representam aproximadamente 60% do PIB global. Nenhum outro membro da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) chegou tão longe.

UMA ESTRATÉGIA, NÃO UMA COINCIDÊNCIA

A construção dessa rede não foi acidental. Desde a adesão à OMC em 2007, o Vietnã adotou a integração comercial como política de Estado — um instrumento tanto de crescimento econômico quanto de modernização institucional. Cada acordo assinado obriga o país a elevar padrões em áreas como transparência regulatória, propriedade intelectual, direitos trabalhistas e proteção ambiental. É um mecanismo de reforma interna disfarçado de tratado de comércio.

O resultado é uma teia de acordos que cobre os principais blocos econômicos do planeta: a União Europeia (via EVFTA, em vigor desde 2020), o Reino Unido (UKVFTA, 2021), o Japão (acordo bilateral desde 2009), a Coreia do Sul, a China, a Austrália, a Nova Zelândia, o Chile, o Canadá, o México e dezenas de outros mercados. Dois acordos se destacam pelo alcance e pela profundidade: o CPTPP e o RCEP.

O CPTPP: PADRÕES ALTOS, MERCADOS NOVOS

O Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Trans-Pacífico — CPTPP, na sigla em inglês — entrou em vigor para o Vietnã em janeiro de 2019 e é considerado um dos acordos de nova geração mais exigentes do mundo. Reúne 11 países: Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnã. Comprometidos a eliminar tarifas sobre 95% dos produtos negociados entre si, os membros do CPTPP respondem por um PIB combinado de cerca de US$ 14 trilhões.

Para o Vietnã, o CPTPP abriu portas que nunca estiveram abertas antes. Canadá, México e Peru eram mercados praticamente inacessíveis para produtos vietnamitas — o acordo criou, da noite para o dia, acesso preferencial a consumidores em três continentes. Os resultados são concretos: as exportações vietnamitas para os países membros do CPTPP cresceram mais de 20% em 2024 em relação ao ano anterior, e os membros do acordo tornaram-se a principal fonte do superávit comercial do país, segundo análise publicada pelo centro de pesquisas Anbound. No setor têxtil, as exportações para o Canadá dispararam após a eliminação de tarifas que chegavam a 18% — a Vinatex, maior grupo têxtil do país, registrou aumento de 25% nas receitas de exportação no primeiro ano de vigência do acordo.

Além das tarifas, o CPTPP impõe padrões elevados em propriedade intelectual, comércio digital, proteção ambiental e direitos trabalhistas — exigências que pressionam o Vietnã a modernizar suas instituições e aumentam a confiança dos investidores estrangeiros no país.

O RCEP: ESCALA ASIÁTICA E FLEXIBILIDADE

Se o CPTPP é o acordo de padrões altos, o RCEP — Parceria Econômica Regional Abrangente, em vigor para o Vietnã desde janeiro de 2022 — é o acordo de escala. Com 15 membros (os dez países da ASEAN mais China, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia), o RCEP é o maior bloco comercial da história: reúne aproximadamente 2,2 bilhões de pessoas e responde por cerca de 30% do PIB global e do comércio mundial.

Para o Vietnã, o RCEP tem valor estratégico especialmente nas cadeias de suprimentos regionais. O acordo harmoniza as regras de origem — exigindo que apenas 40% do valor de um produto seja produzido na região para qualificar acesso tarifário preferencial — o que facilita a integração de insumos de diferentes países membros em produtos finais exportados pelo Vietnã. Isso é particularmente relevante para a eletrônica: componentes da China, semicondutores da Coreia do Sul e peças do Japão podem ser incorporados à produção vietnamita e exportados sob tarifas reduzidas para qualquer membro do bloco.

A relação do Vietnã com o RCEP, no entanto, tem suas tensões. O país acumula um déficit comercial anual de aproximadamente US$ 50 bilhões apenas com a China no âmbito do acordo — reflexo da forte dependência de insumos industriais importados do vizinho. Reduzir essa dependência, subindo na cadeia de valor e desenvolvendo fornecedores locais, é um dos grandes desafios da próxima década.

O QUE VEM A SEGUIR: NEGOCIAÇÕES EM CURSO

O Vietnã não deu sinais de desacelerar sua agenda de integração comercial. Entre os acordos em negociação ou em processo de ratificação estão o tratado com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA — Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein), o acordo ASEAN-Canadá e a versão atualizada do acordo ASEAN-China (versão 3.0). Há ainda discussões em andamento sobre aprofundamento da parceria comercial com os Estados Unidos — especialmente relevante em um contexto de reconfiguração das cadeias globais de suprimentos.

O Ministério do Planejamento e Investimento do Vietnã projeta que o CPTPP poderá adicionar 1,3 ponto percentual ao PIB do país até 2035, enquanto o EVFTA tem potencial de elevar o PIB em até 15% no mesmo horizonte.

O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O BRASIL

O Brasil não é membro do CPTPP nem do RCEP — o que coloca exportadores brasileiros em desvantagem tarifária frente a concorrentes do Chile, do Peru, da Austrália e de outros signatários ao disputar o mercado vietnamita. Esse diferencial é real e crescente: enquanto produtos australianos e canadenses entram no Vietnã com tarifas reduzidas ou zeradas, produtos brasileiros equivalentes pagam alíquotas cheias.

A Parceria Estratégica Brasil-Vietnã assinada em 2025 abre uma janela de diálogo para reduzir essas assimetrias — seja por meio de acordos bilaterais específicos, seja pela eventual aproximação do Mercosul com a ASEAN. Até lá, empresas brasileiras que queiram competir no mercado vietnamita precisam conhecer as regras do jogo: entender quem tem vantagem tarifária, em que setores, e como estruturar operações que minimizem esse diferencial. A Brazil Vietnam Chamber (BVC) acompanha de perto essa agenda regulatória e orienta seus membros sobre as melhores rotas de acesso ao mercado.

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