O governo do Vietnã implementou, no início deste ciclo de 2026, uma redução estratégica nas alíquotas de impostos de importação para uma lista abrangente de bens essenciais e insumos industriais. A medida, oficializada por meio de novos decretos regulatórios, visa mitigar os custos operacionais da indústria local e garantir a estabilidade do abastecimento interno frente às oscilações do comércio global. Para o setor exportador brasileiro, a reforma tributária vietnamita abre uma janela de oportunidade sem precedentes para ampliar a competitividade de produtos industrializados e matérias-primas no Sudeste Asiático.
De acordo com dados divulgados pelo Ministério das Finanças do Vietnã e repercutidos pelo portal *VietnamPlus*, a nova estrutura tarifária foca prioritariamente em setores de base, como proteína animal, componentes de couro e calçados, e insumos para a indústria têxtil. O ajuste nas taxas MFN (*Most Favored Nation*) para itens específicos de origem brasileira apresentou uma redução média de 3% a 5%, um movimento que busca equilibrar a balança comercial e incentivar a modernização do parque fabril vietnamita. O objetivo de Hanói é manter o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) acima de 6,5%, consolidando sua posição como um dos polos manufatureiros mais dinâmicos do mundo.
A reforma ocorre em um momento de transição para o mercado vietnamita, que busca diversificar seus fornecedores além do eixo regional da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático). Ao reduzir o custo de entrada de insumos brasileiros, como o algodão e a celulose, o governo vietnamita fortalece sua própria cadeia exportadora, que depende desses materiais para produzir bens de alto valor agregado destinados à Europa e aos Estados Unidos. Para o empresário brasileiro, essa mudança representa um ganho direto de margem operacional, permitindo que o produto nacional chegue ao consumidor final ou à indústria de processamento em Hanói e Ho Chi Minh com preços mais agressivos.
A análise técnica da Câmara de Comércio e Indústria Brasil Vietnã indica que este movimento fiscal é um reflexo da maturidade das relações bilaterais. Em paralelo aos marcos históricos de desenvolvimento observados em economias como a da Coreia do Sul, o Vietnã sinaliza que a abertura comercial é a ferramenta primordial para sustentar sua competitividade global. A tendência de “Go Global” das empresas vietnamitas exige parceiros confiáveis que ofereçam segurança alimentar e estabilidade no fornecimento de recursos naturais, pilares nos quais o Brasil se destaca internacionalmente.
Victor Key, Presidente da Brazil Vietnam Chamber (BVC), destaca que a redução tarifária é um convite para que as empresas brasileiras revisitem seus planos de internacionalização. Com sede em São Paulo, a BVC tem registrado um aumento no volume de consultas de empresas dos setores metal-mecânico e de agronegócio processado, interessadas em aproveitar o novo ambiente fiscal. Segundo Key, a previsibilidade trazida pelos novos decretos permite que exportadores brasileiros estabeleçam contratos de longo prazo, reduzindo a exposição à volatilidade dos mercados de curto prazo.
A eficácia dessa reforma tributária também pode ser mensurada pelo impacto no custo de vida local e na facilitação do comércio de bens de consumo. Produtos brasileiros que antes enfrentavam barreiras tarifárias elevadas agora encontram um terreno mais fértil, especialmente durante o período que antecede o *Tết* (o Ano Novo Lunar vietnamita), quando a demanda por produtos importados de alta qualidade atinge seu pico. A estratégia vietnamita de reduzir impostos para bens essenciais não apenas protege sua economia da inflação, mas também posiciona o país como um parceiro estratégico para o Brasil na região da Ásia-Pacífico.
No cenário prospectivo para o restante de 2026, a expectativa é que o fluxo comercial entre as duas nações atinja novos patamares, aproximando-se da meta conjunta de US$ 15 bilhões em trocas anuais. A BVC reforça que o momento é ideal para missões comerciais e rodadas de negócios, aproveitando o vácuo deixado por competidores que ainda não se ajustaram às novas normas tributárias do Vietnã. O alinhamento entre a oferta brasileira de alta qualidade e a política de desoneração vietnamita cria um ecossistema favorável para investimentos diretos e parcerias tecnológicas.
O ângulo brasileiro nesta transição é de protagonismo. À medida que o Vietnã se consolida como a “fábrica do mundo” para diversos segmentos tecnológicos e de vestuário, a dependência de insumos eficientes torna-se o seu principal desafio. O Brasil, ao se posicionar como o principal provedor desses recursos sob uma carga tributária reduzida, não apenas exporta mercadorias, mas integra-se de forma estrutural ao sucesso econômico de um dos mercados que mais cresce no planeta. A conexão entre o Porto de Santos e os terminais de Hai Phong e Cat Lai nunca foi tão vital para a estratégia de expansão das empresas brasileiras no Oriente.











