O governo do Vietnã consolidou, no primeiro semestre de 2026, um novo pacote de incentivos fiscais e subsídios para fortalecer a infraestrutura de semicondutores no país, visando atrair investimentos de gigantes globais como NVIDIA, Intel e Samsung. A iniciativa faz parte da Estratégia Nacional de Semicondutores até 2030, que projeta transformar o Sudeste Asiático em um hub de produção de chips de alta tecnologia e design de circuitos integrados. Para o setor extrativista brasileiro, esse movimento sinaliza uma demanda crescente por minerais críticos e insumos estratégicos essenciais para a fabricação de componentes eletrônicos e infraestrutura industrial associada.
De acordo com dados do Ministério do Planejamento e Investimento (MPI) do Vietnã, o setor de semicondutores no país deve movimentar mais de US$ 25 bilhões até o final de 2026, impulsionado pela Decisão nº 1018/QD-TTg. O plano governamental inclui isenções totais de imposto de renda corporativo por quatro anos e uma redução de 50% nas taxas pelos nove anos subsequentes para empresas de alta tecnologia. Além disso, o Vietnã estabeleceu a meta de formar 50.000 engenheiros especializados até 2030, criando um ecossistema que vai além da montagem e testes (OSAT) para alcançar a fabricação de wafers e design avançado.
Este cenário de expansão industrial demanda uma cadeia de suprimentos robusta e diversificada. Embora o Vietnã possua a segunda maior reserva mundial de terras raras, a complexidade da produção de semicondutores exige uma vasta gama de minerais que o Brasil exporta em larga escala. Minérios de ferro de alta pureza, cobre para sistemas de condução, níquel para baterias de backup em data centers e até mesmo o nióbio, utilizado em ligas metálicas de precisão para equipamentos de laboratório, figuram como itens de interesse para as zonas econômicas de Danang e Ho Chi Minh City.
A tendência de descentralização das cadeias globais de suprimento, conhecida como “China Plus One”, posicionou o Vietnã como o destino preferencial para a manufatura de precisão. Em 2026, o país já opera centros de pesquisa e desenvolvimento de ponta em parques tecnológicos como o Hòa Lạc Hi-Tech Park, em Hanói. Para o empresário brasileiro, o impacto prático é a abertura de novos canais de exportação direta para indústrias de base tecnológica, reduzindo a dependência de intermediários em outros mercados asiáticos e elevando o valor agregado dos minerais exportados.
Historicamente, o Vietnã segue uma trajetória de industrialização acelerada que remete ao milagre econômico da Coreia do Sul, mas com uma integração mais profunda aos blocos regionais. Como membro proeminente da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), o Vietnã funciona como uma porta de entrada para um mercado consumidor de 680 milhões de pessoas. A sofisticação de sua indústria de chips eleva o nível de exigência para os fornecedores de insumos, o que beneficia empresas brasileiras que já operam sob padrões internacionais de sustentabilidade e rastreabilidade mineral.
O Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil Vietnã (BVC), Victor Key, destaca que o momento é de transição qualitativa nas relações bilaterais. Segundo Key, a missão da BVC em 2026 foca em conectar diretamente os hubs de mineração em Minas Gerais e no Pará com os polos industriais vietnamitas. “O Brasil não deve ser visto apenas como um fornecedor de commodities agrícolas, mas como um parceiro estratégico indispensável para a segurança mineral da revolução tecnológica vietnamita”, afirma o presidente da instituição, reforçando o compromisso em facilitar diálogos entre reguladores e o setor privado de ambos os países.
No âmbito comparativo, enquanto outros vizinhos regionais ainda enfrentam gargalos de infraestrutura energética, o Vietnã tem investido massivamente em fontes renováveis para alimentar suas plantas de semicondutores. Isso cria uma sinergia com a pauta de descarbonização da mineração brasileira. Empresas nacionais que conseguem certificar a baixa pegada de carbono de seus minerais encontram no Vietnã um mercado premium, disposto a pagar por insumos que ajudem a cumprir as metas de ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa) exigidas pelas matrizes das grandes empresas de tecnologia na Califórnia e em Seul.
As perspectivas futuras indicam que o fluxo comercial entre Brasil e Vietnã, que já vinha em curva ascendente, deve atingir novos patamares de diversificação. O ângulo brasileiro nesta parceria envolve a capacidade de fornecer escala e regularidade para uma indústria que não permite interrupções de suprimento. À medida que o Vietnã escala sua produção de microchips de 12nm e 7nm, a necessidade de minerais de pureza extrema cresce proporcionalmente, abrindo janelas para contratos de longo prazo e parcerias em joint-ventures.
Para o leitor brasileiro, o crescimento da indústria de semicondutores no Sudeste Asiático não é um fenômeno distante, mas uma oportunidade tangível de diversificação de portfólio. A BVC atua como a ponte necessária para que mineradoras e fornecedores de insumos químicos compreendam as especificidades técnicas e regulatórias do mercado vietnamita. O fortalecimento desses laços econômicos garante que o Brasil se mantenha relevante na nova economia digital global, posicionando-se como o alicerce material para o avanço tecnológico de um dos parceiros mais dinâmicos da Ásia.










