São Paulo, 9 de julho de 2026 – A Embaixada do Vietnã no Brasil promoveu nesta quarta-feira (9) um importante encontro reunindo representantes da Associação Vietnamita de Exportadores e Produtores de Pescados (VASEP), da Associação Brasileira de Fomento ao Pescado (ABRAPES), importadores brasileiros, exportadores vietnamitas e autoridades governamentais dos dois países para discutir o fortalecimento do comércio bilateral de pescados e os desafios regulatórios enfrentados pelo setor.
O evento aconteceu em um momento estratégico para as relações comerciais entre Brasil e Vietnã. Apesar do crescimento consistente do intercâmbio comercial, especialmente nas exportações vietnamitas de pescados para o mercado brasileiro, os participantes destacaram a necessidade de ampliar o diálogo institucional para garantir previsibilidade, segurança jurídica e cooperação técnica.

Durante a abertura, o Embaixador do Vietnã no Brasil, Bui Van Nghi, ressaltou que Brasil e Vietnã vivem atualmente um dos melhores momentos de sua relação diplomática, agora elevada ao nível de Parceria Estratégica. Segundo o embaixador, o desafio é transformar essa excelente relação política em resultados econômicos concretos.
Ele destacou que o comércio bilateral apresentou crescimento expressivo no primeiro semestre, mantendo-se equilibrado entre exportações e importações, e enfatizou o caráter complementar das economias dos dois países. Enquanto o Brasil se destaca como fornecedor de commodities agrícolas, matérias-primas e energia, o Vietnã possui forte capacidade industrial, de processamento de alimentos e produção de pescados.
O embaixador também reconheceu que ainda existem obstáculos importantes, como os custos logísticos, a ausência de voos diretos, limitações no fluxo de informações entre empresas e recentes questões regulatórias envolvendo produtos agropecuários e pescados. Nesse contexto, defendeu que eventuais divergências sejam tratadas por meio de diálogo técnico, transparência e critérios científicos.
Entre as prioridades apresentadas, destacou a ampliação dos investimentos bilaterais, o fortalecimento das cadeias de valor, a negociação de um acordo comercial preferencial entre o Vietnã e o Mercosul e a criação de mecanismos permanentes de intercâmbio entre governos, associações e empresas.

Representando a VASEP, o Secretário-Geral Nguyen Hoang Nam apresentou um panorama da indústria pesqueira vietnamita, hoje uma das maiores fornecedoras mundiais de pescados, com exportações anuais entre US$ 9 bilhões e US$ 11 bilhões para aproximadamente 170 mercados.
Segundo a entidade, o setor evoluiu significativamente nas últimas décadas, apoiado por modernas estruturas de processamento, forte participação da iniciativa privada e elevados padrões internacionais de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade.
A apresentação destacou especialmente duas cadeias produtivas.
O pangasius consolidou-se como um dos maiores casos de sucesso da aquicultura mundial, sendo exportado para mais de 100 países e sustentado por uma cadeia produtiva totalmente integrada.
Já a tilápia foi apresentada como a nova fronteira de crescimento da aquicultura vietnamita. Com produção estimada em cerca de 420 mil toneladas em 2025, o Vietnã vem investindo em certificações internacionais, rastreabilidade, segurança alimentar e sustentabilidade para ampliar sua presença nos mercados internacionais.
A VASEP reforçou que os produtos vietnamitas não pretendem competir com a produção brasileira, mas complementar a oferta disponível aos consumidores.
“O objetivo não é substituir o pescado brasileiro, mas ampliar as opções ao consumidor, garantindo fornecimento estável, diversidade de espécies e preços competitivos”, destacou a entidade.
Outro ponto enfatizado foi o crescimento do mercado brasileiro para os produtos vietnamitas. Apenas no primeiro semestre deste ano, as exportações vietnamitas de pescados para o Brasil cresceram cerca de 39%, tornando o país um dos mercados mais dinâmicos para o setor na América Latina.
Na sequência, representantes do Ministério da Agricultura e Meio Ambiente do Vietnã apresentaram o sistema nacional de controle sanitário aplicado à aquicultura.
Foram detalhados os mecanismos oficiais de certificação das fazendas aquícolas, programas obrigatórios de registro, monitoramento sanitário, rastreabilidade e incentivos à adoção de certificações internacionais como VietGAP, GlobalG.A.P., ASC e BAP.
As autoridades ressaltaram que o controle de resíduos, segurança alimentar e inspeções periódicas fazem parte da política nacional para garantir a conformidade dos produtos destinados à exportação.
A Conselheira Comercial do Vietnã em São Paulo, Pham Hong Trang, apresentou um panorama mais amplo da pauta comercial entre os dois países.
Ela destacou o crescimento das exportações vietnamitas de produtos industrializados, eletrônicos, máquinas, autopeças e bens de maior valor agregado para o mercado brasileiro.
No setor pesqueiro, as exportações já ultrapassaram US$ 110 milhões no primeiro semestre, crescimento próximo de 38% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo a conselheira, a expansão sustentável da presença vietnamita no Brasil dependerá da adaptação contínua às exigências regulatórias brasileiras, do fortalecimento das marcas vietnamitas, da ampliação dos canais de distribuição e da cooperação cada vez mais estreita entre governos, entidades setoriais e empresas.
Representando a ABRAPES, a diretora executiva Thamires Quinhões apresentou a visão dos importadores brasileiros sobre o cenário atual.
Ela destacou que o Vietnã ocupa hoje a posição de segundo maior fornecedor de pescados ao Brasil, respondendo por aproximadamente um quarto das importações nacionais do setor.
Segundo a entidade, as importações desempenham papel complementar à produção brasileira, contribuindo para ampliar a oferta ao consumidor e atender à crescente demanda por pescado.
Ao abordar os desafios regulatórios, Thamires chamou atenção para o Projeto de Lei nº 6.331/2005, que propõe a proibição da importação de tilápia, além de medidas estaduais relacionadas a incentivos fiscais e restrições sanitárias.
Embora os embarques continuem ocorrendo normalmente, a associação alertou que essas iniciativas geram insegurança jurídica e reduzem a previsibilidade necessária para investimentos e planejamento das operações comerciais.
A ABRAPES defendeu que todas as decisões relacionadas ao comércio internacional sejam fundamentadas em critérios científicos, transparência regulatória e diálogo permanente entre os setores público e privado.
Ao final do encontro, representantes brasileiros e vietnamitas reafirmaram o compromisso de ampliar a cooperação técnica, fortalecer o intercâmbio de informações e desenvolver ações conjuntas que contribuam para um ambiente comercial mais previsível e favorável.
O consenso entre os participantes foi de que a parceria entre Brasil e Vietnã possui elevado potencial de expansão e que o fortalecimento do diálogo institucional será fundamental para transformar a excelente relação diplomática entre os dois países em novas oportunidades de negócios, investimentos e desenvolvimento sustentável para toda a cadeia de pescados.












